| Roy Lichtenstein - Vida Animada |
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22 mar - 21 maio 2006 | 3º andar - 3.3
Drawing for Brushstroke for D. Spoerri, 1971 No início dos anos 1960, época em que Roy Lichtenstein criou seus personagens em quadrinhos, esse trabalho surpreendia pela extrema ousadia, sendo que alguns o consideravam chocantemente ruim e banal. Entretanto, ao final da década o artista se tornara um gigante incontestável da Pop Art e, já na virada do século, um Mestre Moderno. Hoje ele é reconhecido por seus desenhos de histórias em quadrinhos, a um só tempo bem-humorados e inescrutáveis; por naturezas-mortas, paisagens e obras-primas da arte erudita – e pelas cifras de sete dígitos alcançadas por suas pinturas. Apesar disso tudo, ele é bem menos conhecido pelo notável talento conceitual, que, conjugado com suas habilidades formais, o torna um dos maiores artistas do século 20. Ao chegar a Nova York em 1961, Roy Lichtenstein pertencia a uma geração que reagia ao domínio do Expressionismo Abstrato – uma geração que procurava livrar-se dele e, ao mesmo tempo, expandir a linguagem e as possibilidades da arte. Se o Expressionismo Abstrato privilegiava temas míticos, atos heróicos e expressão individual, Lichtenstein e seus pares voltavam-se para assuntos corriqueiros, abraçando o cotidiano, o comum e o ubíquo. Suas representações diretas refletiam o mundo midiatizado graças à comunicação em massa. Ao mesmo tempo em que renegavam a gestualidade rítmica da pintura contínua ou a pincelada vigorosa da abstração expressionista, Lichtenstein e os artistas Pop passaram a celebrar suas obras no cenário aparentemente insensível dos produtos de consumo nos Estados Unidos. Suas imagens eram tão emblemáticas da cultura de seu país quanto a afirmação existencial do Eu (self) e o fervor espiritual, em relação ao Expressionismo Abstrato. Essa nova geração estava apenas prospectando uma dimensão diferente da psique estadunidense. Já na década de 1950, Lichtenstein começara a se apropriar e reproduzir lugares-comuns em seu trabalho, tais como temas históricos e da cultura tipicamente norte-americana, caubóis, índios e personagens de desenhos animados, como Mickey e Pato Donald – embora em estilo expressionista. Em pouco tempo, o artista se conscientizou do enorme potencial do cartum, não apenas como portador simbólico de significado, um tema familiar e emblemático, mas também como um modo mecânico e “burro” de representar e dar nova vida a algo. Por volta de 1961 ele compreendeu que o estilo do cartum lhe conferia uma “oportunidade de imitar, parodiar e representar – tudo de modo cool, contemporâneo e sem pôr a mão na massa”. Aos 38 anos de idade, Lichtenstein havia alterado radicalmente o rumo de sua arte, utilizando a técnica do cartum para representar imagens do cotidiano produzidas para comunicação em massa – revistas, anúncios, tiras em quadrinhos, páginas amarelas, catálogos para venda por entrega postal, etc. O cartum permitiu a Lichtenstein forjar um novo não-estilo – segundo os moldes da produção em massa – completamente dissociado do Expressionismo Abstrato. Em suas cópias e cartuns, ele adotou gêneros convencionais – natureza-morta, paisagem e figura –, valendo-se de seu vocabulário moderno para reanimar e revivificar esses temas acadêmicos tradicionais. O desenho sempre esteve na base da estética de Lichtenstein e na origem de seu novo partido na arte. Seu estilo se baseava no cartum, o qual por sua vez tem um estilo gráfico abstrato e plano, levando o desenho a desempenhar um papel fundamental na obra do artista. Lichtenstein produziu quase três mil desenhos no decorrer dos 50 anos de sua carreira, sendo que todas as suas pinturas e esculturas partiram de algum desenho. Não raro ele começava por reproduzir, em pequena escala, muitas versões de uma imagem que copiava de alguma fonte. Em sua forma final, o desenho ganharia uma escala maior ou seria transformado numa colagem de grandes dimensões, precursora de uma tela pintada ou uma escultura. Em alguns casos, nos estudos de uma escultura, o artista utilizava fita adesiva para ampliar uma forma sobre placas de grandes formatos. Enquanto preparava a “cópia” inicial e também nos estágios subseqüentes, Lichtenstein sujeitava a imagem copiada a muitas alterações sutis, seja por meio de corte, redução ou ampliação, abstração ou esquematização. Seja ao adotar essas linguagens e técnicas comuns, ou ao escolher imagens que se tornaram conhecidas pelo uso excessivo, Lichtenstein dedicou toda a sua carreira a contestar aquilo que acreditávamos ser familiar, sobrepassado, banal – e até mesmo feio –, transformando-o em novo e maravilhoso. A sua arte sutil e subversiva retraduz e reanima, instilando vida naquilo que havia sido negligenciado, descartado e ignorado, tanto quanto o artista Rauschenberg encontrou inspiração num monte de lixo. Apesar de ter usado a cópia, o cartum e o clichê na construção de sua carreira – e até por conta disso –, a arte de Roy Lichtenstein era altamente original e expressiva e superlativamente inventiva. Por ser tão franca, ela é totalmente viva. Ver sua obra nos dias de hoje é uma experiência tocante, pungente e até emocionante, em parte porque ela tão bem representa os nossos dias e, em parte, porque o artista escolheu temas de que gostava e técnicas que amava. Lisa Phillips Patrocínio Petrobras
Drawing for Roommates, 1993 A exposição foi organizada em conjunto com a Roy Lichtenstein Foundation, Nova York The exhibition was organized in collaboration with the Roy Lichtenstein Foundation, New York |