|
Concebida por Bia Lessa a partir da obra gentilmente cedida por Aracy Carvalho Guimarães Rosa, por ocasião da inauguração do Museu da Língua Portuguesa, São Paulo. Exposição 03 jul a 28 out 2007 3º andar - espaço 3.1 | 250 m2 1 instalação
“A linguagem e a vida são uma coisa só. Quem não fizer do idioma o espelho de sua personalidade não vive; e como a vida é uma corrente contínua, a linguagem também deve evoluir constantemente. Isto significa que como escritor devo me prestar contas de cada palavra e considerar cada palavra o tempo necessário até ela ser novamente vida. O idioma é a única porta para o infinito, mas infelizmente está oculto sob montanha de cinzas.” João Guimarães Rosa Bia Lessa fala sobre a concepção da exposição para o Museu da Língua Portuguesa: Quando fomos convidados pela Fundação Roberto Marinho para criar um projeto para a sala de exposições temporárias e tivemos conhecimento do escopo do Museu da Língua Portuguesa (voltado em sua grande maioria à gênese da língua), achamos que seria fundamental um espaço para os escritores – referências de nossa cultura. Uma sala destinada ao aprofundamento da linguagem enquanto instrumento de pensamento e de identidade.
Escolhemos João Guimarães Rosa sem hesitação – um escritor que une a antropologia da palavra com a liberdade de poder recriá-la.
Percebemos logo que não poderíamos trabalhar com imagens. Não há imagens possíveis do sertão de Guimarães Rosa. “O sertão está em toda a parte”. As imagens seriam sempre simplificadoras de um sentido mais amplo, e por isso optamos por expor apenas palavras, num contexto de construção – construção da linguagem – construção do indivíduo. Usamos de forma literal o tijolo, a terra, os entulhos, latas de tinta, restos do mundo. Uma metáfora simplória.
Mas como usar palavras, trechos, fragmentar uma obra como o Grande sertão: veredas, que não tem capítulos ou divisões internas? Nasce e morre num único fôlego. Uma obra inseparável de seu todo. Decidimos expor a integra.
Estaríamos todos, o tempo todo, dentro da obra, bastaria acioná-la. As páginas estariam presas individualmente e contrapesadas com saquinhos contendo terra do sertão. Dessa forma poderiam ser manuseadas pelos visitantes. Desceriam e subiriam, cada uma no seu ritmo, criando um movimento constante na sala – quando habitada. Optamos por não dividir o ambiente – mas dividir o olhar. O espectador caminharia pela sala sete vezes, cada vez direcionando sua visão para um foco. De posse dos percursos, começamos a experimentar como expor as palavras a partir do leitmotiv “Mire e veja”. Não basta olhar, temos que enxergar. No caso de o espectador seguir a trilha de Riobaldo, encontraria palavras ilegíveis jogadas em restos do mundo - lixos. De um único ponto, o texto se tornaria claro. Como Riobaldo que procura ao longo do romance a construção de uma compreensão da vida, através de sua complexa trajetória. Sem procura não há revelação.
Se seguissem a trilha de Diadorim, encontrariam frases (escritas no avesso) cobertas por uma lamina de água contidas em galões. Sobre os galões, presos no teto, um balde gotejaria lentamente, dando vida a esse reservatório que encobre fragmentos da obra. Para ler, o visitante precisa fazer uso de um espelho estabelecendo um diálogo com o ilegível.. Diadorim, se esconde e se revela durante todo o romance.
“Visita, aqui em casa, comigo, é por três dias!” diz Guimarães. Por isso o percurso do Interlocutor propõe que o visitante preste atenção e dedique um tempo até a descoberta das frases completas.
No caso do Diabo, o percurso levaria o visitante para os cantos. Os textos estão escritos no chão numa pequena camada de terra podendo se desfazer num sopro. Como num sopro vem o medo que nos atinge e nos abandona. O Diabo.
Na trilha dos Fragmentos, os textos seriam escritos em tapetes e paredes de tijolo. As palavras organizadas construindo um sentido, os tijolos organizados se transformando em paredes e tapetes. A linguagem explicitamente sendo construída.
No caminho das Batalhas, a batalha – uma atitude extrema que só encontra sentido pela falta de sentido. Concretizaríamos esse conceito forçando a mão a bordar as palavras em painéis de madeira. A mão fere. Não se borda madeira, e essa sería a única justificativa para bordá-la. Em vez de linha bordaríamos com lã.. Lã que usamos para nos proteger do frio e nos confortar, como as guerras que muitas vezes nos protegem de nós mesmos. O romance.
Os Estudos para a Obra estariam expostos na janela – no lugar simbólico da observação do mundo. Em algumas janelas cobertas por um insulfilm amarelo (uma espécie de sol artificial), veríamos a imagem da cidade com a interferência da cor – uma realidade transformada e inventada – os sertões de Guimarães Rosa.
Nos restavariam a saída de emergência localizados dentro da sala, no coração do espaço. Um lugar comum, de intimidade, sem nobreza – um espaço da condição humana. Monitores com depoimentos preciosos de Paulo Mendes da Rocha, Haroldo de Campos, Sérgio Sant‘Anna, Décio Pignatari, Antonio Candido, Antonio Callado e Eduardo Coutinho, criadores de outras obras dialogando com o Grande sertão:veredas. Nas paredes imprimiríamos duas fotos de Severino Silva. Dois cadáveres, um homem e uma mulher, mortos na guerrilha urbana. O homem morto com 35 facas gravadas no corpo – uma espécie de São Sebastião. A mulher, enforcada num buraco de esgoto. “O sertão é sem lugar.”
No ambiente, uma composição sonora de Dany Roland, composta a partir de sons do sertão (captados por Julio de Paula), sons de metrópole, gravações de trechos do Fausto de Goethe (em alemão), do Crime e castigo de Dostoievski (em russo), obras que dialogam com o Grande sertão: veredas e que compõem o universo de Guimarães Rosa. Juntando-se a esses sons, uma composição para piano pontuando o universo misterioso e sincopado de Diadorim. No único espaço vazio e recluso da sala, – a voz de Maria Bethânia lendo (não interpretando) um trecho do romance, transformando o sons das palavras em palavras concretas (como só ela faz). Perdidas no nada o visitante se percebe diante de janelas onde se pode ver a aridez da cidade com suas mil janelas e portas, num emaranhados de vidas e historias que se organizam e se desorganizam cotidianamente. Rompendo a nossa própria regra o encontro de Riobaldo e Diadorim, se faz presente numa única imagem na instalação. Notas que soam solitárias no universo do sertão.
Dividindo o olhar, fomos em busca do todo da obra: “O sertão está em toda a parte.”
patrocínio IBM realização Fundação Roberto Marinho apoio Lei de Incentivo à Cultura | Ministério da Cultura | Tess Advogados imagem foto Luciano Mattos Bogado |